A Geoquímica no Brasil e no Mundo


Os Primórdios

História Da Criação Da Sociedade Brasileira De Geoquímica -- SBGq

Os registros mais antigos que se tem a respeito da utilização da geoquímica no Brasil ocorreram em Minas Gerais, estado tradicionalmente voltado para as atividades mineiras. No final do século dezenove, ou mais precisamente no período de 1881 a 1885 o pioneiro Henri Gorceix (figura 1) realizou no laboratório da Escola de Minas em Ouro Preto (figura 2), análises completas de rochas e terras raras para complementar seus estudos em petrologia e mineralogia (Oliveira, 1897). Eram análises de minerais e metais nobres pelo processo de copelação ou fire assay. Ao que tudo indica o citado laboratório sobreviveu até a década de 30(Dutra, 2002).

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Figura 1 - Claude Henri Gorceix. (1842-1919)

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Figura 2 - Escola de Minas de Ouro Preto - MG.

Em 1935 o mundo foi contemplado com os trabalhos referentes à distribuição dos elementos na crosta terrestre efetuado pelo cientista alemão Viktor M. Goldschimidt, chamado "pai da geoquímica moderna" (figura 3). Poucos anos depois, no final da década de 30, ou mais precisamente em 1938, o pesquisador brasileiro Djalma Guimarães (figura 4), que lia com desenvoltura o alemão e acompanhando de perto dos trabalhos de Goldschimidt, iniciou suas pesquisas com minerais raros, pegmatitos, bem como elementos raros utilizando espectrografia de emissão óptica. As analises eram efetuadas no Serviço Estadual da Produção Mineral da Secretaria de Agricultura de Minas Gerais - SPM, que possuía um laboratório especializado e completo e contava com uma plêiade de cientistas de Ouro Preto e alemães onde se destacam Alfred Schaeffer e Otto Roche. Foi neste laboratório que Caio Pandiá, irmão de Djalma Guimarães descobriu um novo mineral, que era uma variedade de microlita e batiza-o de Djalmita.

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Figura 3 - Viktor Moritz Goldschmidt (1888-1947) Pai da geoquímica moderna.

No inicio dos anos 40, movidos pelo chamado "esforço de guerra", de dos incentivos do projeto Manhattam patrocinado pelo governo dos Estados Unidos, grande parte das pesquisas direcionaram-se para o desenvolvimento nuclear. Vários cientistas no mundo se empenhavam na pesquisa de minerais de metais de alta tecnologia a exemplo do urânio, tório, nióbio, tântalo, zircônio, terras raras e outros. Em 1941, o SPM iniciou um estudo analítico sistemático das águas minerais e radioativas de Minas Gerais (Dutra, 2001).

Em 1952 ocorre em Araxá, MG à primeira campanha de prospecção geoquímica que se tem noticia no Brasil. Foram coletadas milhares de amostras geoquímicas orientadas por contador geigers e por aerocintilometria. As analises foram feitas por varredura multielementar por espectrografia óptica de emissão no Instituto de Tecnologia Industrial ITI de Minas Gerais. Através destas análises foram detectadas anomalias de bário, estrôncio, nióbio, terras raras, tório, e fósforo. Neste trabalho foi analisado também urânio através de fluorimetria (Dutra, 1958). No final da década de cinqüenta, dentro de um programa do U. S. Geological Survey foram realizados estudos geoquímicos do Quadrilátero Ferríferro por Norman Herz e Cláudio Dutra (Herz &Dutra, 1958).

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Figura 4 - Djalma Guimarães. (1895 - 1973)

Apesar dos citados avanços brasileiros na análise de minerais, foi na década de 60 que a geoquímica brasileira recebeu um incremento maior a nível nacional. Nos anos de 1960 a 1961 foi montado o laboratório de geoquímica da Universidade da Bahia através o Departamento Nacional da Produção Mineral - DNPM, em colaboração com o serviço geológico dos Estados Unidos - USGS. Teve um destaque especial nesta ocasião o geoquímico Richard W. Lewis Jr tanto na organização como no treinamento de pessoal especializado.

No período de 1961 a 1965 ocorreu o primeiro estudo sistemático de um caso de geoquímica no Brasil por estudantes brasileiros, a saber: a área cuprífera da bacia hidrográfica do rio Curaçá no estado da Bahia. Esta região era particularmente interessante, pois por suas características de clima semi-árido apresentava uma camada relativamente delgada de solos (Bandeira &Carvalho, 1973), o que facilitou, sobremaneira, os estudos de detalhamentos. Os resultados mostraram de forma animadora as grandes possibilidades da geoquímica como ferramenta de prospecção mineral.

Em 1965 o DNPM lançou o Plano Mestre Decenal que trouxe um grande impulso no setor mineral.

O primeiro encontro oficial de geoquímicos brasileiros que se tem registro, ocorreu no ano de 1968, na Escola de Ouro Preto, onde foi realizado o Simpósio de Geoquímica através da fundação Fullbritht dos Estados Unidos. Na realidade o encontro foi um intercambio de idéias e um preâmbulo da sociedade que depois iria se formar (Dutra, 1981). Para esses entusiasmados professores de universidades e demais pesquisadores que participavam do encontro, as idéias discorriam a respeito da valiosa colaboração que a geoquímica vinha prestando às demais ciências da Terra. Isso poderia significar que ao nível de Brasil haveria a probabilidade de complementar e consolidar os preciosos estudos geológicos e petrográficos até então realizados em território nacional. Neste período histórico já se estava conseguindo trabalhar com equipamentos analíticos sofisticados e, tudo indicava, que seriam obtidos limites de detecção cada vez mais baixos para a maioria dos elementos menores e, deste modo, abriram perspectivas de aquisição de conhecimentos até então inalcançados pela tecnologia química convencional. A geoquímica surgia, portanto, como uma esperança excitante aos acadêmicos daquela época.

Por outro lado, para aqueles ligados à pesquisa mineral, os exemplos das descobertas cientificas feitas através de programas geoquímicos russos e canadense eram noticias animadoras, uma vez que através da ferramenta geoquímica tornava-se possível indiciar mineralizações contidas nos substrato geológico daqueles paises cobertos por espessas camadas de neve, e grandes lagos. A geoquímica investigando traços de elementos, juntamente com a geofísica, já há algum tempo estavam sendo aceitas como principais ferramentas indiretas de prospecção nos paises do hemisfério norte.

O interesse pela geoquímica de exploração tornou-se crescente e os primeiros geoquímicos brasileiros animados com os casos históricos de jazidas minerais, passaram a vislumbrar a geoquímica com grandes esperanças uma vez que, à exceção da região nordeste, a maior parte da nação era recoberta por grandes espessuras de solos onde a ferramenta geoquímica poderia indiciar anomalias em solos e sedimentos de corrente. Considerando os elevados custos das sondagens e da geofísica, a geoquímica passou a ser encarada como uma ferramenta relativamente barata para ajudar a desvendar as tão sonhadas jazidas minerais existentes no subsolo. A geofísica e a sondagem passaram a ser mais empregadas em trabalhos de detalhamento. Apesar das aludidas vantagens, o emprego da geoquímica era um pouco restrita, pois uma boa parte das amostras coletadas ainda eram analisadas no exterior.

Ao mesmo tempo em que eram feitos os levantamentos surgiam questionamentos principalmente aqueles referentes às particularidades de uma geoquímica voltada às peculiaridades de um pais tropical pois, afinal, a maior parte dos conhecimentos, havia sido obtidos em paises frios e temperados. As universidades brasileiras, que já vinham efetuando importantes estudos em vários ramos da geoquímica, não somente responderam de forma eficiente a esse apelo, como também desenvolveram metodologias próprias que foram logo absorvidas pelos prospectores e outros geocientistas interessados nas técnicas.

Apesar dos avanços da década de 60 a grande alavancagem ocorreu na década seguinte, a saber: a de 70, onde a geoquímica viveu um período áureo. Dentre os principais eventos ocorridos, cita-se: A implantação do primeiro curso de mestrado em geoquímica na Universidade da Bahia com o apoio de diversos órgãos federais. Neste período apareceram também muitos trabalhos de geoquímica editados pelas universidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, e Pará.

O surgimento de importantes laboratórios para atender a demanda analítica. Neste particular exerceu um papel importante o Laboratório de Análises Minerais - LAMIN criado em 1972 na CPRM, através da fusão de laboratórios de química, petrografia e mineralogia que antes pertenciam ao Departamento Nacional da Produção Mineral - DNPM (CPRM, 2002) - figura 5. Dentre os laboratórios particulares destacam-se a Geologia e Sondagens S.A - Geosol, a Sociétè General de Surveillance - SGS e a Geoquímica empresa pertencente a um dos importantes pioneiros da geoquímica que fixou residência no Brasil, o Dr. Richard Weatheley Lewis, popularmente conhecido como Dick Lewis. Importantes processos de extrações químicas, incluindo as extrações seletivas, divulgação de processos de adsorção de argilas foram exaustivamente estudados nas universidades e laboratórios.

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Figura 5 - Prédio do DNPM / CPRM no Rio de Janeiro, onde funciona até hoje o Laboratório de Análises Minerais - LAMIN.

Utilização sistemática da geoquímica de exploração por grandes empresas estatais quase sempre acompanhado por mapeamentos regionais e de semi-detalhamento, a exemplo da Companhia de Pesquisas e Recursos Minerais - CPRM, Empresas Nucleares Brasileiras - NuclebrÁs, Rio Doce Geologia - DOCEGEO e a Petrobras Mineração - PETROMISA. Além destas, surgiram também empresas estaduais como Companhia Baiana de Pesquisas Minerais - CBPM, Metais de Goiás S.A. - METAGO, Metais de Minas Gerais S.A. - METAMIG, Minerais do Paraná - Mineropar S.A., etc. Junto a estas outras empresas particulares e multinacionais também investiam no setor de geoquímica.

Desenvolvimento de programas de computação voltados ao atendimento de grandes bancos de dados geoquímicos. Foi marcante a atuação da CPRM, na criação do Sistema Estatístico de Amostragem Geoquímica - SEAG com modelo de ficha geoquímica e gravação em fita magnética de computador de grande porte. Dentre os pioneiros do sistema SEAG os geólogos Dick Lewis e Carlos A. G. da Vinha tiveram atuação importante. Este sistema serviu de modelo para as grandes empresas de prospecção geoquímica que atuaram no território nacional (Bruni, 1982).

Utilização da geoquímica na busca de campos petrolíferos. A semelhança da geoquímica que se ocupava na busca de substancias inorgânicas, surgia nesta década o Centro de Pesquisas da Petrobras - CENPES (figura 6), através da divisão de geoquímica uma equipe de pioneiros das quais destacam-se Justo Camejo, René Rodrigues, Luiz P. Quadros, Nelson Babinsky, Paulo C. Gaglianone e Aimar S. Santos (figura 7). Um pouco depois destes chegaram os geólogos Luiz A. Trindade, Eugenio V. S. Neto, Marcio Mello, José R. Cerqueira e outros que muito contribuíram para a descoberta de novos campos e avaliação de reservatórios. Um número expressivo de laboratórios geoquímicos especializados na área de petróleo e de tecnologia de ponta foi posta a disposição dos pesquisadores.

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figura 6 - Prédio do CENPES / PETROBRAS no Rio de Janeiro.

Necessidade de criação de um grupo de cientistas voltados para a geoquímica. Foi neste cenário dinâmico e em meio de uma torrente de informações da década de 70 que surgiu a necessidade de organização de um grupo de cientistas voltado para as atividades de geoquímica, tanto a nível exploracionista como acadêmico. Em outras palavras: se por um lado podiam-se obter melhores conhecimentos a respeito dos meios amostrados e da química dos elementos, além de se identificar mineralizações importantes a partir de anomalias geoquímicas, por outro lado, passou-se a sentir a necessidade de um fórum onde se pudesse expor e discutir o grande número de dados geoquímicos coletados num espaço de tempo relativamente curto. Somente através de uma sociedade seria possível obter o real entendimento dos fenômenos envolvidos e de técnicas até então restritas a paises de clima frio e temperado. Na realidade a sociedade foi precedida por uma comissão técnica que atuou durante sete anos até que se alcançasse à maturidade de uma sociedade fosse definitivamente aceita e implantada. Constituição de uma comissão técnico-cientifífica. No final da década de 70, ou seja: em 1978 em Recife, por ocasião do XXX Congresso Brasileiro de Geologia criou-se a Comissão Técnica Científica de Geologia - CTCGq que, muito embora ainda não desfrutasse do status de sociedade, era o evento onde se apresentavam trabalhos da área de geoquímica em que havia forte participação em fóruns e estudos específicos. O geólogo Dorival Bruni ficou provisoriamente como presidente tendo o geoquímico Erasmo como secretário executivo (Bruni comunicação verbal).

O I Simpósio Brasileiro de Geoquímica da CTCGq, foi realizado no balneário de Camboriú- SC, em outubro de 1980, junto com o XXXI Congresso Brasileiro de Geologia (figura 8). Um grande volume de informações e participações ocorreu neste simpósio. Nesta ocasião foi formalmente eleita a diretoria executiva da CTCGq para o biênio 1981 - 1982, assim constituída:

  • Presidente: Dorival C. Bruni;
  • Vice-Presidente: José D. Alecrim;
  • Secretário Técnico: Luis Carlos Buriti;
  • Tesoureiro: Mauro Marchetto;
  • Diretor de Publicações: Carlos S. Bandeira de Mello.

Procurando atuar de forma a cobrir todo território nacional foram ainda escolhidos representantes regionais de 18 estados. A equipe, em ordem alfabética, era formada por Ajuricaba Monte, Carlos Cavalcanti, Dirceu Macedo, Frederico Campelo, Germano Melo, Joaquim Goulart, José D. Alecrim, José Erasmo, Mauricio Ramos, Mauro Marchetto, Olavo Caramori, Otávio B. Licht, Raymundo Brim, Rosa Cotrim, Sérgio Frizzo, Sergio Romanini, Valdomir Andrade, Wilson Pinho e Winston Addas, (Informativo Geoquímico - 1982). Outros 62 colegas foram eleitos como representantes setoriais. A CTCGq passou assim a funcionar numa sede alugada na rua Manoel de Carvalho, 16 - conjunto 71/72 no centro do Rio de Janeiro. O endereço para correspondência era caixa postal 2432 - CEP 20031 e o telefone 021 220-6913.

Em 1981, foi criado o Boletim Informativo Geoquímico - IG, de circulação semestral, para manter atualizadas as atividades geoquímicas no Brasil e no exterior, sob a coordenação de Bandeira de Mello (figura 9). A partir do terceiro número a capa passou a ser ilustrada com figuras do livro De Re Metallica de Georgius Agrícola, (1494 e 1555), considerado o pai da mineralogia por descrever em detalhes as operações mineiras e metalúrgicas de sua época (BGRMHM, 1998).

Figura 7 - Pioneiros do Centro de Pesquisas da Petrobras - CENPES. Da esquerda para direita Justo Camejo, Aimar Santos, Paulo César Gaglianone e René Rodrigues.

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Figura 8 - Alguns membros da diretoria da CTCGq na sala de conferencias do I Simpósio Brasileiro de Geoquímica realizado em Camboriú- SC no ano de 1980. Da esquerda para direita, Dorival Bruni, Silvio Matoso, Carlos Bandeira.


Figura 9 - Informativo geoquímico da CTCGq com reprodução de figura de Georgius Agrícola (ilustração a bico de pena por Agenor S.B.Mello).

Em outubro de 1982, foi realizado, em Salvador - Ba, o II Simpósio Brasileiro de Geoquímica patrocinado pela CTCGq juntamente como XXXII Congresso Brasileiro de Geologia. Neste ano, estimava-se que o Brasil colaborasse com aproximadamente 1% das amostras geoquímicas coletadas no mundo que totalizavam 35 milhões de unidades (Bruni, 1982). Neste II simpósio foi eleita a nova diretoria da CTCGq para o período de 1982 a 1984, cuja diretoria executiva ficou assim estabelecida:

  • Presidente: Dorival C. Bruni;
  • Vice-Presidente: José D. Alecrim;
  • Primeiro secretário: Irving F. Brown;
  • Segundo secretário: Sérgio J. Frizzo;
  • Tesoureiro: Mauro Marchetto;
  • Comitê de Intercâmbio internacional: Richard W. Lewis (coordenação);
  • Comitê Editorial: Carlos S. Bandeira de Mello (coordenação).

Atuaram, ainda com diversas atribuições os colegas citados em ordem alfabética: Adolfo J. Melfi, Arão Horowitz, Carlos A. Cavalcanti, Celso B. Gomes, Cláudio V. Dutra, Edezio Macambira, Eric Araújo, Germano Mello, Gustavo N. D. Gonçalves, Hélio M. Penha, Hélios O. Godoi, Hubert Roeser, Joaquim J. Oliveira, Justo C. Ferreira, Lauro Azevedo, Luiz A. A. Toledo, Luiz B. Pereira, Mauricio M. Ramos, Milton L. L. Formoso, Newton M. Pereira, Paulo C. Gaglianone, Pierre Sabaté, Raul M. Kuyumjian, Raymundo J. P. Brim, Renato S. Andrade, Ronaldo Montenegro, Saul B. Suslick, Sylvio Q. Mattoso, Vânia N. Araújo, Winston Addas.

Em 1984 ocorreu o Primeiro Simpósio Brasileiro-Africano Sobre Exploração Geoquímica em paralelo ao XXXIII Congresso Brasileiro de Geologia no Rio de Janeiro. Nesse evento, por ocasião da reunião da CTCGq, sentiu-se que pelo expressivo número de participantes era hora de passar-se de comissão a uma sociedade atuante a nível nacional e internacional. Foi opinião geral dos presentes que o grupo já possuía estrutura e amadurecimento para formação de uma sociedade legalmente constituída. Estava lançado, portanto, os alicerces da tão almejada sociedade específica para a geoquímica, atendendo ao apelo da maioria dos congressistas ali presentes.